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“Sou uma ativista do setor das lavanderias”

Como Anaíra Ovelar levou lógica industrial e visão estratégica para dentro da empresa da família

Foto: Divulgação

Ela atende a entrevista de um hotel em Macapá (AP), depois de passar o dia acompanhando a instalação de uma planta industrial. A agenda tomada por viagens mistura auditorias, projetos operacionais e treinamentos em diferentes regiões do país. Em determinado momento da conversa, Anaíra Ovelar ri da própria rotina: “Você pede trabalho para Deus e depois não pode reclamar.”

A frase resume o ritmo de uma executiva que se tornou referência em um mercado historicamente operacional e ainda pouco associado à gestão estratégica.

Mãe de dois filhos, psicóloga de formação e ex-profissional da TAM Linhas Aéreas e da JBS, Anaíra passou a infância dentro das lavanderias da família e cresceu acompanhando de perto a operação do negócio. Anos depois, levaria para dentro da WaterClean, lavanderia fundada pelos pais em Campo Grande (MS), conhecimentos em auditoria, qualidade industrial, gestão de pessoas e eficiência adquiridos ao longo da carreira corporativa.

Em um período em que boa parte do setor ainda operava de forma pouco estruturada, ela passou a implantar indicadores, programas de treinamento, padronização operacional e práticas de gestão industrial que transformaram a WaterClean em referência de profissionalização.

O reconhecimento veio em 2012, quando a empresa venceu o MPE Brasil, prêmio nacional de competitividade concedido pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), tornando-se a primeira lavanderia do segmento de serviços a conquistar a premiação. O feito se repetiria em 2015, consolidando a operação como um caso de referência em qualidade e gestão dentro do setor.

A experiência deu origem à ConLav, consultoria especializada em gestão e desenvolvimento de lavanderias de diferentes portes. Em 2024 ela se afastou da operação da WaterClean, que segue sob gestão de sua irmã e passou a se dedicar integralmente ao trabalho de treinamento e disseminação de  informações.

“Sou uma ativista do setor das lavanderias”, afirma a executiva, que hoje atua com o propósito de ampliar o nível de gestão e conhecimento técnico dentro do mercado.  Para Anaíra, muitos empresários ainda concentram decisões apenas na compra de equipamentos, sem considerar fatores determinantes para produtividade e rentabilidade, como treinamento, padronização, desenvolvimento de equipes e capacidade técnica para avaliar fornecedores e realizar investimentos de maneira estratégica.

“Eu vi o quanto isso era difícil para os meus pais. É um setor em que os empresários trabalham muito, mas muitas vezes sem acesso às informações necessárias para tomar decisões melhores e crescer de forma estruturada”, afirma.

Na avaliação dela, ainda existe a percepção de que investir em lavanderia significa apenas investir em maquinário. “Equipamento não gera resultado sozinho. Sem treinamento, processos adequados e gestão de pessoas, a máquina não entrega performance”, diz.

Gestão industrial aplicada à lavanderia

Anaíra retornou à lavanderia da família em 2009, quando estava grávida do primeiro filho e também precisava focar na finalização do curso de psicologia. A aplicação do conhecimento adquirido no mundo corporativo foi imediata.

“Comecei a replicar dentro da lavanderia tudo aquilo que aprendi na indústria. Ao mesmo tempo, continuei buscando formação em certificações técnicas e gestão, muito apoiada pelo Sebrae, onde fiz o Empretec”, conta.

A mudança trouxe procedimentos de garantia da qualidade, indicadores operacionais, capacitação de equipes e maior padronização dos processos — algo ainda raro naquele momento. “Eu entrava com processo, treinamento, capacitação com clientes e fornecedores. Isso praticamente não existia”, afirma.

Segundo Anaíra, a premiação do MPE Brasil ajudou a validar os processos implantados e abriu portas em grandes redes hoteleiras, como a Accor. “Quando comecei, praticamente ninguém falava sobre rastreabilidade, eficiência operacional, qualidade ou gestão dentro da lavanderia. Era um setor muito invisível”, lembra.

O insight hospitalar

A entrada no segmento hospitalar aconteceu a partir de uma estratégia diferente da praticada pelo mercado naquele momento. Em vez de disputar clientes diretamente com concorrentes, Anaíra passou a procurar hospitais que ainda mantinham lavanderias próprias. Ela oferecia diagnósticos envolvendo produtividade, consumo energético, consumo de água, custo operacional, dimensionamento de enxoval e eficiência das operações.

“Eu pegava dados de motor de máquina, referências de máquina, consumo energético, consumo de água e entendia qual era o custo operacional real”, explica. A análise incluía ainda projeções relacionadas ao espaço físico ocupado pelas lavanderias dentro dos hospitais.

“O espaço que o hospital destinava à lavanderia poderia virar UTI, atendimento ou outras áreas mais rentáveis. A lavanderia é essencial, mas é um centro de custos para o hospital”, resume.

Segundo ela, muitos hospitais simplesmente não conheciam o custo real das próprias operações de lavanderia, porque a estrutura financeira não permite, porque esse não é o core. Foi justamente essa leitura operacional que ajudou a abrir espaço para a terceirização das lavanderias hospitalares.

Paralelamente, a WaterClean buscou a acreditação da ONA — Organização Nacional de Acreditação, entidade responsável pela validação de padrões de qualidade e segurança em operações de saúde — tornando-se a primeira lavanderia de Mato Grosso do Sul a conquistar a certificação.

O novo papel das lavanderias

Ao longo da entrevista, Anaíra reforça o coro de especialistas com a ideia de que lavanderias precisam deixar de operar apenas sob lógica operacional e incorporar visão mais estratégica de gestão.

Na avaliação da executiva, o setor atravessa um processo acelerado de profissionalização impulsionado pelo aumento dos custos energéticos, pela pressão por eficiência e pela necessidade crescente de rastreabilidade e padronização.

“Por trás de cada enxoval existe produtividade, gestão energética, processo e análise financeira. O mercado começou a perceber isso agora”, diz.

Para ela, a próxima evolução das lavanderias brasileiras dependerá menos apenas de estrutura física e mais da capacidade de formar equipes, organizar processos e transformar conhecimento técnico em eficiência operacional. “Não existe processo eficiente sem treinamento e desenvolvimento de pessoas. O mercado finalmente começou a perceber isso aos poucos”, afirma. Anaíra percebeu muito antes.

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Publicado em:Destaques,Mercado

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