Quando falamos sobre lavanderias industriais, hospitalares ou hoteleiras, é comum direcionarmos a atenção para equipamentos, tecnologia, produtos químicos, automação e produtividade. Entretanto, existe um fator que continua sendo o verdadeiro coração da operação: a mão de obra. E talvez esteja justamente nela um dos maiores “calcanhares de Aquiles” do setor.
E talvez esteja justamente nela um dos maiores “calcanhares de Aquiles” do setor.
Por mais moderna que seja uma lavanderia, são as pessoas que executam os processos, tomam decisões, solucionam problemas e, principalmente, entregam o serviço ao cliente. Em outras palavras: o cliente não recebe apenas roupa limpa; ele recebe o resultado do trabalho humano realizado dentro da operação.
Ao mesmo tempo, a mão de obra representa uma das maiores parcelas do custo operacional de uma lavanderia e, infelizmente, muitas vezes entrega índices de produtividade abaixo do esperado. Esse cenário gera um desafio constante para os gestores: como manter qualidade, produtividade e rentabilidade diante de tantas vulnerabilidades relacionadas às pessoas?
A realidade do setor mostra que convivemos diariamente com problemas como absenteísmo, rotatividade elevada, baixa qualificação, vulnerabilidade trabalhista e dificuldades de retenção de talentos. E agora surge mais uma preocupação para muitos empresários: a possível ampliação das discussões sobre escalas de trabalho, como o modelo 5×2, que poderá impactar diretamente operações contínuas e equipes produtivas.
Além disso, precisamos compreender uma característica natural do trabalho operacional contínuo: existe uma curva de aproveitamento produtivo. Diversos estudos demonstram que, após aproximadamente seis horas de atividade contínua, o rendimento operacional tende a entrar em declínio. Soma-se a isso o fato de que a produtividade média do trabalhador brasileiro gira em torno de 60% a 70% do potencial produtivo esperado.
Diante desse cenário, muitos gestores se perguntam: como absorver tantos impactos sem comprometer a operação?
A resposta começa no princípio da gestão de pessoas.
Infelizmente, é muito comum encontrarmos empresas que investem mais tempo no processo demissional do que no processo admissional. Ou seja, dedicam energia para administrar problemas quando deveriam concentrar esforços na prevenção deles.
Contratar corretamente é uma das decisões mais estratégicas dentro de uma lavanderia.
Antes mesmo de iniciar um recrutamento, é fundamental desenhar o perfil ideal do colaborador. E isso não deve ocorrer de maneira informal ou baseada apenas na experiência prática do gestor. É necessário estruturar uma Ordem de Serviço por cargo, contendo não apenas atribuições operacionais, mas também características comportamentais, pré-requisitos técnicos, limitações físicas da função, competências desejadas e expectativas de desempenho.
Quando o perfil é bem definido, o processo de recrutamento e seleção se torna mais assertivo, reduzindo significativamente admissões equivocadas e aumentando o aproveitamento dos colaboradores contratados.
Mas contratar bem não basta.
Depois da admissão, inicia-se outra etapa igualmente importante: treinamento e capacitação.
Não existe excelência sem desenvolvimento.
Muitos empresários ainda acreditam que treinamento representa custo, quando na realidade ele deve ser visto como investimento operacional. Um colaborador mal treinado produz menos, gera mais retrabalho, aumenta desperdícios, compromete a qualidade, eleva o índice de não conformidades e impacta diretamente a satisfação do cliente.
Treinar significa desenvolver conhecimentos, habilidades e segurança operacional. Significa padronizar processos e reduzir dependência de “vícios operacionais” adquiridos ao longo do tempo.
Naturalmente, existe um fator que nenhuma empresa consegue fabricar: atitude.
A atitude vem da pessoa. Está relacionada ao comprometimento, responsabilidade e postura profissional. Contudo, embora a empresa não possa criar isso integralmente, ela possui um papel fundamental em fomentar um ambiente favorável ao desenvolvimento dessas atitudes.
Ambientes organizados, regras claras, liderança presente, reconhecimento profissional, comunicação transparente e reforço positivo sobre resultados alcançados contribuem diretamente para equipes mais motivadas e comprometidas.
E aqui está um ponto importante: muitos lavandeiros já possuem conhecimento sobre tudo isso.
Sabem da importância da gestão de pessoas. Sabem da necessidade de treinamento. Sabem que precisam melhorar processos admissionais e fortalecer lideranças.
O problema, na maioria das vezes, não está na falta de conhecimento, mas sim na omissão da gestão.
Quando a gestão de pessoas deixa de ser prioridade, os impactos aparecem rapidamente na produção: atrasos, baixa produtividade, aumento do retrabalho, falhas operacionais, conflitos internos, desgaste das lideranças e insatisfação dos clientes.
E sabemos que, no segmento de lavanderia, um cliente insatisfeito dificilmente reclama apenas uma vez. Normalmente ele já chega à reclamação depois de vários episódios acumulados.
Por isso, investir em pessoas não deve ser encarado como um luxo administrativo, mas como uma necessidade estratégica para sobrevivência e crescimento sustentável do negócio.
Em nenhum momento dissemos que seria fácil.
Gerir pessoas continuará sendo um dos maiores desafios das lavanderias. Porém, ignorar esse cenário não elimina o problema; apenas aumenta os impactos operacionais ao longo do tempo.
É necessário percorrer o caminho.
Porque, se você deseja alcançar resultados diferentes, será preciso fazer diferente daquilo que está fazendo hoje.
Este artigo foi produzido por Anaíra Ovelar, psicóloga organizacional, especialista em gestão de lavanderias e fundadora da ConLav.O conteúdo reflete a visão da autora sobre os temas abordados.
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