Da escolha dos equipamentos à experiência do cliente, especialistas apontam os fatores que mais comprometem a rentabilidade e a capacidade de expansão das operações.
As lavanderias self-service seguem em expansão no Brasil, impulsionadas pela busca por conveniência, pela redução do tamanho dos imóveis e pelas mudanças nos hábitos de consumo. O avanço do segmento também aparece nos números do franchising. Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o segmento de Limpeza e Conservação cresceu 13,8% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O crescimento atraiu investidores de diferentes perfis e acelerou a abertura de novas unidades. Mas também trouxe um desafio que começa a ganhar relevância no setor: transformar operações concebidas para entrar rapidamente no mercado em negócios capazes de crescer de forma sustentável. Até pouco tempo, a preocupação dos empreendedores estava concentrada na inauguração da unidade. Hoje, ganham relevância decisões relacionadas à capacidade de expansão, à rentabilidade, à experiência do cliente e à eficiência operacional. Segundo especialistas ouvidos pelo Lavtech News, muitos dos obstáculos ao crescimento das lavanderias não decorrem da falta de demanda, mas de escolhas feitas ainda na fase de planejamento do negócio.
Acreditar que automação elimina gestão

Felipe Buranello, diretor de Microfranquias e Relacionamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF)
A operação enxuta das lavanderias self-service frequentemente cria a impressão de que o negócio exige pouco acompanhamento. Para Felipe Buranello, diretor de Microfranquias e Relacionamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF), essa percepção está entre os principais equívocos cometidos por novos investidores.
“O modelo pode ter baixa necessidade de mão de obra no ponto de venda, mas exige acompanhamento constante de indicadores, manutenção preventiva, limpeza, suporte ao cliente, gestão financeira e ações comerciais. A automação reduz complexidade operacional, mas não substitui gestão”, observa.
A avaliação é compartilhada por Alexandre Diniz, sócio-diretor da Autax Equipamentos. “O discurso de que a lavanderia trabalha sozinha é subjetivo. Antes dela começar a trabalhar sozinha, você teve reforma, escolha do ponto, sistema, montagem. E depois disso continua tendo marketing, relacionamento com cliente e observação do dia a dia do negócio para entender para que lado ele precisa evoluir.”
Dimensionar a lavanderia para inaugurar, não para evoluir

Alexandre Diniz, sócio-diretor da Autax Equipamentos
Segundo Alexandre Diniz, muitas lavanderias são estruturadas para viabilizar a entrada no mercado com o menor investimento possível, sem uma avaliação mais ampla sobre sua capacidade futura de expansão.
Na prática, essa decisão influencia diretamente o potencial de geração de receita da operação. Equipamentos de menor capacidade tendem a restringir o atendimento de determinadas demandas, especialmente a lavagem de itens volumosos, como edredons, mantas, cobertores e roupas de cama. Em algumas regiões, esse tipo de serviço representa uma parcela importante da procura e pode ampliar significativamente as oportunidades de faturamento.
“A máquina tem um faturamento limitado. Se o empreendedor não pensar em escala desde o início, a conta pode não fechar. Entrar no mercado é uma coisa. Crescer e evoluir depois é outra completamente diferente.”
Segundo o executivo, o desafio se torna ainda mais evidente quando a operação precisa crescer. A ampliação da capacidade instalada pode exigir adequações elétricas, reforço na infraestrutura energética e novos investimentos estruturais. “A lavanderia passa a exigir projeto, engenharia elétrica, estruturação e planejamento.”
Escolher equipamentos sem avaliar o fornecedor pode gerar prejuízos silenciosos
Outro erro recorrente aparece na escolha dos fornecedores. Muitos empreendedores dedicam pouca atenção à estrutura das empresas responsáveis pelos equipamentos.
Fatores como assistência técnica, disponibilidade de peças, tempo de resposta e histórico do fornecedor devem ser cuidadosamente observados. Especialistas recomendam que investidores visitem operações em funcionamento e conversem com empresários do setor antes de tomar uma decisão.
Outro ponto crítico é a manutenção preventiva. “Em lavanderias de autosserviço, máquina parada significa perda direta de receita e frustração do cliente”, afirma Felipe Buranello.
O cliente percebe problemas que o operador muitas vezes ignora

Luciana do Rocio Mallon, especialista em vesteterapia
Luciana do Rocio Mallon, especialista em vesteterapia, destaca que muitos empreendedores concentram esforços na estrutura da operação, mas acabam negligenciando fatores que moldam a percepção do consumidor sobre a qualidade do serviço. Limpeza, facilidade de acesso e cuidados com a conservação das roupas estão entre os aspectos que mais influenciam a fidelização dos clientes.
Algumas decisões tomadas para reduzir custos acabam produzindo o efeito contrário ao esperado: afastam clientes e comprometem a percepção de qualidade da operação.
“A falta de limpeza constante, a escolha de locais de difícil acesso em busca de aluguel mais barato e a utilização de materiais de baixa qualidade, que podem manchar as roupas, provocar a formação de bolinhas e acelerar o desgaste dos tecidos, são erros muito comuns”, afirma.
Da expansão à consolidação
Para Angelo Max Donaton, CEO da Lavô, o crescimento do setor dependerá não apenas da abertura de novas unidades, mas também da capacidade dos operadores de ampliar o acesso ao serviço e fortalecer sua percepção de valor junto ao consumidor.
“Para acelerar o crescimento do mercado, o setor precisa investir em iniciativas de educação e conscientização, destacando as vantagens práticas e econômicas do modelo.”
Donaton destaca que a expansão para pontos estratégicos, como condomínios residenciais, universidades e bairros com alta concentração de apartamentos compactos, pode ampliar o acesso ao serviço. Somam-se a isso programas de fidelidade, soluções tecnológicas e uma experiência cada vez mais moderna, fatores capazes de transformar o uso das lavanderias em um hábito recorrente.

Alexandre Quezada vice-presidente de Marketing do Grupo FROTH
Alex Quezada, vice-presidente de Marketing do Grupo FROTH, holding responsável pelas redes 5àsec e LavPop, afirma que muitos empreendedores ainda subestimam a importância do marketing para a consolidação do negócio. Segundo o executivo, ainda persiste a percepção equivocada de que basta abrir uma lavanderia para que os clientes apareçam naturalmente.
“O mercado exige presença digital, gestão ativa das avaliações online, campanhas locais, programas de fidelidade e relacionamento contínuo com a comunidade do entorno.”
O investimento em marketing também é reforçado por Valeria Silva, CEO da OMO Lavanderia Especializada. “Experiência do cliente e marketing negligenciados, ambiente pouco atrativo, comunicação insuficiente, falta de clareza na jornada e baixa exploração de canais de marketing reduzem retenção, recorrência e percepção de valor do cliente”, pontua.
Se a primeira fase de crescimento do autosserviço foi impulsionada pela novidade do conceito, a próxima tende a ser definida pela capacidade de execução dos operadores. Em um mercado que amadurece rapidamente, a diferenciação deixa de estar apenas no acesso à tecnologia e passa a depender cada vez mais da eficiência operacional, experiência do cliente e da capacidade de transformar crescimento em rentabilidade. E fatos indicam que esse momento está batendo à porta.
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