O setor ainda opera muito pela intuição
Empresário do segmento de lavanderias há 28 anos, mestre em empreendedorismo pela FEA-USP, mentor e consultor em lavanderias e pequenos negócios, membro do júri internacional do Comité International De L’Entretien du Textile (CINET) e membro do júri nacional do Prêmio Lavtech Melhores Práticas, Rui Torres também já atuou como facilitador do Empretec do Sebrae e se tornou uma das vozes mais respeitadas na profissionalização do mercado de lavanderias no Brasil.
Depois de décadas acompanhando e atuando para a evolução do segmento, ele acredita que o setor ainda carrega fragilidades importantes em gestão, análise de dados e precificação – mesmo em um momento de expansão de novos modelos, avanço das franquias e consolidação em segmentos industriais.
Nesta entrevista ao Lavtech News, Rui fala sobre saturação no autosserviço, baixa maturidade gerencial, produtividade, consolidação e o risco de operações que continuam crescendo sem conhecer seus próprios custos.
LN – O setor de lavanderias no Brasil é historicamente fragmentado e com forte presença de pequenas e médias empresas, como indicam entidades como a ANEL. O crescimento recente foi acompanhado por amadurecimento na gestão?
De fato, as lavanderias são em geral pequenas empresas, com seus proprietários fortemente envolvidos na operação, o que deixa a gestão em segundo plano, infelizmente. É preciso evoluir bastante neste aspecto.
LN – Em um mercado com baixa transparência de dados consolidados, quais são hoje os principais pontos cegos para quem toma decisão?
Do ponto de vista de gestão, custos e a consequente formação de preços. Como a concorrência é muito dispersa, muitos proprietários acabam precificando de acordo com a concorrência local, sem saber muitas vezes seus custos, e sem se preocupar em oferecer valor agregado aos seus clientes.
LN – Em uma operação intensiva em utilidades e mão de obra, onde o controle de custos é determinante, onde estão hoje os principais pontos de perda de valor?
Eu diria que a produtividade é o ponto mais crítico. Temos lavanderias com equipes maiores, mas nem sempre mais eficientes e produtivas.
LN – O modelo de precificação predominante no setor consegue refletir a complexidade operacional ou há um desalinhamento estrutural?
Há um grande desalinhamento, porque muitos simplesmente não calculam seus custos.
LN – Crescer em volume ainda é uma estratégia sólida ou pode mascarar ineficiências?
Crescer em volume é importante, mas, sem saber custos, pode representar um problema ainda maior.
LN – O que caracteriza, na prática, uma lavanderia bem gerida, além de indicadores de produção?
Indicadores financeiros são essenciais, além dos comerciais, como faturamento, ticket médio, número de clientes atendidos, número de clientes novos, e assim por diante
LN – O avanço de modelos como o autosserviço acompanha uma tendência internacional de crescimento consistente. No Brasil, isso representa uma mudança estrutural ou ainda está restrito a nichos?
Aqui no Brasil, o crescimento tem sido fortemente impactado pelo surgimento de novas marcas, através do sistema de franquias. Mas temo que esteja já em processo de saturação por excesso de oferta.
LN – O autosserviço, por ter uma lógica diferente de custo e operação, altera a dinâmica competitiva do setor?
Depende do posicionamento que as lavanderias de varejo adotarem. Elas precisam trabalhar mais a gestão comercial para mostrar aos clientes o seu valor agregado.
LN – Há risco de saturação em grandes centros urbanos ou o mercado ainda está em fase de expansão?
Penso que o mercado já está saturado, tanto em grandes centros urbanos, como em cidades menores. Apesar disso, novas marcas seguem aparecendo.
LN – O setor está alocando capital com base em fundamentos ou seguindo movimentos de mercado?
O principal apelo para o investidor é a “ausência” de mão-de-obra, e esse tem sido o principal diferencial vendido. Mas há uma bolha no mercado.
LN – Você acredita que o crescimento do setor de lavanderias impulsionado por novos comportamentos e modelos de empreendimentos imobiliários deve seguir impactando positivamente o setor ou pode ser apenas uma onda?
Em grandes centros, houve uma explosão de estúdios, mas não sei se todos terão demanda de locação. Quando falamos de locação de curta duração, como os aplicativos, a demanda para lavanderia é baixa, e, quando existente, vai para autosserviço.
LN – Quais segmentos do setor de lavanderias e modelos de negócio você acredita que devem deslanchar nos próximos 3 ou 5 anos? Por quais razões?
Hospitais e hotéis deverão ter mercado favorável em função do turismo e do maior uso de serviços de saúde pela população. Autosserviço deve passar por uma depuração, por excesso de concorrentes e varejo terá que buscar diferenciais competitivos.
LN – Existe espaço real para diferenciação ou parte relevante do mercado caminha para comoditização?
Quando falamos em varejo, sim, há espaço para diferenciação, que pode ser em operação eficiente ou com oferta para classes mais altas.
LN – Onde a tecnologia tem gerado retorno mensurável dentro das operações?
Com os sistemas, as informações são coletadas, mas infelizmente não estão sendo interpretadas nem analisadas, e decisões deixam de ser tomadas.
LN- Dado o perfil intensivo em consumo de água e energia, a sustentabilidade tende a se tornar um fator competitivo relevante no setor?
Esse é um diferencial competitivo que tem que ser explorado como vantagem competitiva. Mas, questões ecológicas se tornarão obrigação num futuro breve. O caminho é adquirir produtos ecológicos e usar equipamentos com mais consciência, e, de preferência, com economia de água e energia elétrica.
LN – Se você estivesse começando hoje, em quais modelos de lavanderia faria mais sentido investir?
Essa é uma pergunta de um milhão de dólares. Lavanderia tem vários segmentos, tudo vai depender do que o investidor quer alcançar, de que forma, e quanto tem para investir.
LN – O setor está tomando decisões mais baseadas em dados ou ainda prevalece a intuição?
Para os operadores de varejo que têm apenas uma unidade, prevalece a intuição. Mas o mercado tem amadurecido bastante e já começa a entender a importância da coleta, análise e interpretação de dados para a tomada de decisões.
LN – Em que você mudou de opinião ao longo da sua trajetória no setor?
Tomada de decisão baseada em dados, empreendedores que devem se ver menos como operadores e mais como gestores. Sei que é fácil falar, mas é fundamental.
LN – Qual foi a decisão mais difícil da sua carreira e o que ela revela sobre o mercado?
Não tenho uma decisão mais difícil, mas pequenas decisões que vão adiando uma decisão difícil, que mais cedo ou mais tarde terá que ser tomada.
LN – Que conselho você daria a um CEO que acredita que sua operação já atingiu um bom nível de eficiência?
Trabalhar a ambidestria organizacional, que é melhorar o que já funciona bem, e buscar novas formas, através da inovação, de fazer o que já se faz.
LN – O setor precisa hoje de mais tecnologia, mais capital ou mais gestão? Precisará sempre dos três, mas, pela ordem: gestão, tecnologia e capital.
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